Vengador

Vengador


Na esquina da rua Logan com a Rua Etna, no subdistrito de Cypress Hills, situado entre o Brooklin e o Queens no estado de Nova Iorque, Estados Unidos, ocorreu algo deveras interessante.

Ali havia um prédio industrial que fora invadido por muitas famílias de baixa renda, causando repugnância em seus vizinhos. Estes, chegaram ao ponto de organizarem  um abaixo assinado para que todos fossem expulsos e que o prédio fosse demolido para manter o bairro “agradável”.

A descrição a seguir, ocorreu na manhã de 14 de abril de 1996 



Um incêndio se espalhou rapidamente do térreo para os andares superiores, destruindo e transformando tudo em cinzas em poucos instantes. Sobreviveram ao incidente apenas duas pessoas que estavam fora do edifício e o garoto Willy, de 6 anos, que estranhamente foi encontrado vivo sob um cobertor nos fundos do imóvel.


Aparentemente todas as portas foram bloqueadas por fora, encarcerando os habitantes, impedindo sua saída. A polícia local não pareceu preocupada em encontrar os culpados pelo incêndio, claramente criminoso.


Em frente a este prédio, morava a família Bigs.


Nelson Bigs, um senhor de aproximadamente 55 anos, era simpático com os moradores: gostava de todos e todos gostavam dele.


Louise Bigs, sua esposa, aparentava a mesma idade. Uma dona de casa que exalava alegria, sempre falando com orgulho dos três filhos que criaram com amor, carinho e muito esforço. Nunca perdia a oportunidade de falar deles.


Ernest era o mais velho. Estudava direito na inglaterra. Louise nunca soube dizer o nome da universidade, mas falava que era importante.


Erwing, o irmão do meio. Dava aulas de surf na Califórnia - “Esse menino nunca gostou de estudar, sempre com aquele skate embaixo do braço, mas nunca me deu trabalho”, dizia sua mãe.


Por fim, Earl, o caçula. Estudava na Universidade de Columbia, ali mesmo em Nova York, porem Louise não saberia dizer com precisão qual disciplina o menino cursava. Mas lembrava que quando o levaram até lá, tiraram várias fotos porque o lugar era maravilhoso de se ver.


Um dia, Louise ficou sabendo que o garoto sobrevivente do incêndio, estava no orfanato The Guardian Angels Alliance e seria colocado para adoção pois não possuía outros parentes disponíveis - ou mesmo existentes.


Louise e Nelson conheciam a fama deste orfanato e o quanto ele era mal administrado por Francy Fegula, alguém que parecia insistir em tornar o local em um inferno.


Ambos então decidiram entrar com os documentos necessários para tornarem-se guardiões da criança - afim de ajudar uma alma solitária - e em breve receberam a notícia de que poderiam buscar o garoto. Por enquanto seria um lar temporário, mas a intenção era possivelmente adotá-lo em definitivo num futuro próximo.


Willy chegou tristonho e tímido em sua nova casa. Por mais que seus novos pais tentassem iniciar um diálogo, ele nunca soltava uma palavra. Vivia quieto, vidrado em seu minigame eletrônico. Levaram ele a muitos psicólogos e terapeutas, pessoas especializadas em traumas, porém sem resultado.


Certo dia, voltando pra casa de um passeio no parque, eles cruzaram com um filhotinho de gato, onde Willy começou a gargalhar e espernear: Vengador! Vengador! Vengador!


Prontamente, correu e pegou o gatinho no colo, repetindo efusivamente as palavras “Vengador! Vengador! Vengador!”


O casal Bigs se espantou tanto com o menino pronunciar palavras em voz alta, como com a reação dele ao ver o pequeno felino. Principalmente pois o garoto já havia visto diversos outros gatos e jamais exibira a mesma reação.


Apreciando o carinho de Willy pelo animal, e afim de facilitar sua adaptação, o casal resolveu levar o bichano pra casa e os dois se tornaram inseparáveis.


Vengador era um gatinho todo branco, sem rabo, apenas com a pata direita dianteira preta. 

Eles brincavam juntos constantemente e após alguns poucos dias de convivência, o garoto passou a interagir com as outras pessoas.


Certa noite antes de dormir, Nelson pode ouvir Willy cantando uma música soturna, de melodia estranha, que ele nunca havia escutado: “Vão em frente, marchem juntos em direção ao objetivo comum, acalme-se ao sol ainda que o tempo encobre um extenso e traiçoeiro cardume”.


Empurrou vagaroso a porta do quarto de Willy, delicadamente indagando-o sobre onde ele havia escutado aquela canção. Willy respondeu de forma instantânea e alegre, que Vengador havia ensinado para ele. Nelson abriu um sorriso pálido e sem pressionar por uma resposta assertiva, retornou a seu quarto.


No dia de ação de graças daquele ano, toda a família estava presente para a comemoração. Earl trouxe consigo Ashley, sua namorada, que por sua vez trouxe Spooky, seu poodle. Spooky e Vengador se odiaram logo no primeiro encontro, fazendo com que Louise deixasse Vengador fechado no quarto, para evitar rinhas.


A família dormiu contente após a celebração e ao despertar pela manhã, enquanto Ashley arrumava seus pertences para partir, percebeu que spooky não estava por perto. Passou horas chamando o cachorro pelo nome, vasculhou os cômodos da casa, saiu para as ruas próximas e até mesmo chegou a ligar para o serviço de animais perdidos, mas tudo em vão. 


Muitas horas se passaram. Ashley, já em prantos, com toda a família a seu redor, pensaram em desistir pois o cachorro simplesmente sumira. Vizinhos, conhecidos, transeuntes, todos foram questionados mas ninguém tinha visto Spooky. Continuaram a busca por mais dois dias, porém Earl precisava voltar para a faculdade e Nelson garantiu que não desistiria de procurar.


Dois anos se passaram.


Em 1998, bombeiros passaram a retirar os escombros do antigo prédio incendiado para facilitar sua demolição. Vengador costumava a escapar por algum lugar que os Bigs não identificavam, se pondo a perambular pelo prédio abandonado, fuçando pelos andares e ‘fazendo amizade’ com os trabalhadores.

Quando dava por falta, Willy chamava seu pai para buscá-lo, para no dia seguinte a mesma história se repetir.


Finalmente, a demolição começou. Vengador sentava-se na janela e ficava admirando a obra e o barulho de paredes caindo, como se estivesse satisfeito com isso.


Discorreu-se mais um ano, e no primeiro dia de fevereiro de 1999, cerca de três da manhã, Nelson se levantou da cama para ir ao banheiro, quando notou luzes azuis e vermelhas piscando brilhantes na rua. Vestiu seu roupão e saiu pra ver o que acontecia, acordando Louise no processo.


Norah, sua vizinha, estava aos prantos apoiada no ombro de um policial.


O policial estava ali para informar que Drew, seu marido, havia sido encontrado em um beco atrás do restaurante Pollo Rey na rua Crescent, sem vida. O policial comentou que o corpo estava cheio de lacerações, causadas por algum tipo de instrumento cortante sem precisão. Parecia até mesmo que havia brigado com vários leões. A idéia causou-lhe um pequeno espasmo de sorriso, ao imaginar a cena, mas retornou instantâneo à expressão formal ao perceber a reação negativa de Nelson.


Em 8 de fevereiro, Louise não sentia-se disposta a cozinhar. Decidiu caminhar até a deli próxima e comprar alguns sanduíches. Encontrou na loja sua amiga Marta, engajando em uma conversa amigável. Esta, comentou com sua amiga Louise que o filho mais velho de Nicole, havia sido assassinado atrás do hotel A Space, algo horrível. “Apenas reconheceram ele por conta dos documentos! Estava todo retalhado!”


Em casa, procurou seu marido e o encontrou saindo do banheiro com Vengador nos braços.

Nelson disse que que Vengador estava com umas manchas escuras no pelo, que ele havia passado água e sabão para tirar. Louise então descreveu o que ouviu e eles ficaram se entreolhando sem saber o que pensar.


Dia 22 de fevereiro. O casal Bigs ouviu um grito vindo do quarto de Willy e correram para socorrê-lo. Entraram no cômodo de sopetão, onde encontraram Willy trêmulo, com sangue nas mãos, recostado na porta do armário. Sobre a cama estava Vengador, absolutamente imundo de sangue, cercado por marcas ensanguentadas na janela, no caminho até o móvel e sobre todo o lençol. Louise pegou o garoto no colo e tateou seu corpo, felizmente não encontrando nenhum ferimento. Nelson com muito cuidado, se aproximou do gato e verificou se ele estava ferido. Não estava.


Os três se assustaram quando a campainha quebrou o silêncio e a tensão na casa. Era o Sr. Thompsom - um amigo que morava na rua de trás e que caminhava pelo bairro todas as manhãs. Ficara curioso ao ouvir um grito vindo da casa na hora que estava passando, mas Nelson esclareceu que tinha sido apenas um susto. Sr. Thompsom disse que aquele bairro não era mais seguro. Que na noite passada três pessoas haviam sido assassinadas na calçada do Cemitério nacional, mas que desta vez pegariam os culpados pois na loja em frente, a Two Roses, câmeras que ficavam ligadas por toda a noite apontavam para a rua. Louise ligou imediatamente para Ernest, já que uma antiga amiga do rapaz e a irmã dela eram donas dessa loja e prontamente explicou o que estava acontecendo na região.


Naquele final de tarde, por volta das dezoito horas, Rose, dona da loja, retornou a ligação para Louise, alarmando que estava aterrorizada com o ocorrido e que entregou uma cópia da gravação para a polícia, mas que por curiosidade mórbida, assistira ao vídeo.


Com a voz nervosa, trêmula, comentou que dois rapazes e uma moça andavam pela calçada, conversando casualmente, quando um homem estranho saiu repentino de dentro do cemitério, acompanhado de uma enorme avalanche negra e os atacou. Prestando mais atenção e ampliando o vídeo através do software, notou o que parecia um número incontável de gatos, voando para cima das vítimas com garras e dentes afiados, até que eles pararam de se contorcer e se debater, então dispersaram tão rápido quanto surgiram, espalhando-se para todas as direções. O homem misterioso pareceu escalar a parede do cemitério e, sobre o muro, se jogou para trás, como um mergulhador.


Louise, apavorada, desligou o telefone e gritou para Nelson que não queria mais aquele gato em casa. Willy chorou, implorando para que não fizessem nada, pois Vengador somente atacava os culpados.


Com os cabelos arrepiados, o casal Bigs carregou Willy para a sala e ordenaram o rapaz a explicar o que ele tinha acabado de dizer.


Willy, suspendendo o choro e abrindo um sorriso, esclareceu que em seus sonhos Vengador dizia que tinha vindo de Alvernia e assim que todos os culpados pela morte da mãe dele tivessem pagado, ele voltaria para casa. Que se Willy assim desejasse, poderia também ir junto com ele achar outros culpados pelo mundo.


Louise caiu em prantos. Nelson, agoniado, abraçou sua esposa e tomou uma decisão. Pegou o garoto no colo e logo saíram da casa. Nelson entrou em contato com seu amigo Chuck, que trabalhava no pet shop Puppy Paws, explicou o que estava acontecendo e pediu para que ele fosse até sua residência e carregasse o gato embora. Willy voltou a chorar, insistindo que gostaria de ir embora com Vengador.


Chuck seguiu as instruções de Nelson, entrando na residência Bigs pé ante pé e cuidadosamente procurou pelo felino. Encontrou-o calmo e preguiçoso sobre o sofá. Cuidadosamente pegou Vengador pelo corpo e colocou-o em uma pequena jaula, sem que este esboçasse qualquer tipo de reação adversa.


Alguns dias se passaram e Erwing ligou para seu pai, ansioso para que ele abrisse seu e-mail. Havia encontrado informações bizarras na internet e queria compartilhá-las.


“Este email descrevia sobre uma possível lenda da Ilha Cat nas Bahamas, a respeito de um povo muito pacato e vegetariano chamado Aruaque. Um povo esse que tinha aprendido a conviver harmoniosamente com diversos gatos, onde cada família tinha no mínimo três. Utilizavam em seu cotidiano folhas de rubiácea - uma planta com propriedades analgesicas que, por motivos desconhecidos, atraía os felinos, que inclusive os ajudavam a encontrar a planta nas matas e florestas.


De acordo com a lenda, também vivia na ilha um povo chamado Lucaiano, que assim como os Aruaques, não tinham armas, mas eram mais propensos à violência. Em 1492, Cristóvão Colombo fez aliança com os Lucaianos, ao aportar na ilha, e assim, escravizou toda a tribo de Aruaques.


Certa vez, um dos soldados de Colombo matou um dos gatos dos Aruaques, apenas por esporte e crueldade, para mostrar dominância. Inclusive alguns Lucaianos que estavam por perto gargalharam.


Naquela mesma noite, houve um ataque massivo na tribo do Lucainaos e todos foram chacinados por diverso felinos. Não somente gatos, mas também pumas e linces estavam no bando de ataque. Após o bizarro ocorrido, o curandeiro do povo Aruaque e todos os gatos da ilha desapareceram.


Outro caso parecido foi descrito próximo ao lago Hinuma, em Hitachiota no Japão, onde em 1924, o assassino Minatto Yuuma exterminou uma família inteira, sendo encontrado morto alguns dias depois, totalmente eviscerado por garras felinas.


Em 1948 próximo à Floresta Estadual de Migela, em Townsville na Austrália, Allana Briles matou os dois filhos de seu amante depois dele tê-la deixado. Foi encontrada morta da mesma forma.


Em 1972 Jonas Jackson foi encontrado igualmente dilacerado próximo ao Reservatório Arena, em Trinidad e Tobago, mas nenhum crime havia sido atribuído a ele.”


Terminando a leitura dos documentos, Nelson conversou pelo telefone com seu filho, que havia feito extensa pesquisa sobre os ataques. Discutiu também as informações com Louise, que dizia não acreditar em nada daquilo e que era o povo que não tinha mais o que fazer.


Porém, no dia seguinte, agindo costumeira para o ritual de acordar seu filho, Louise chocou-se ao encontrar o quarto de Willy vazio. Nelson despertou com o grito de sua esposa e correu para seu lado. Procuraram o garoto por todos os cantos mas ele havia desaparecido. Foi quando Nelson recebeu uma ligação de seu amigo Chuck, informando a coincidência de que o gato Vengador havia desaparecido do pet shop também.


A polícia foi acionada e procuraram o garoto por semanas, mas sem sucesso.


Pelos seis meses seguintes, Louise insistiu que precisava ir até as Bahamas buscar seu filho. Tinha certeza que ele estaria com o maldito gato. Ninguém aprovou aquela idéia, mas depois de tanto choro e imploração, Erwing decidiu juntar dinheiro com seus irmãos e acompanhar a mãe e o pai naquela jornada maluca.


Na ilha, nenhum morador da região aceitou guiá-los até o monte Alvernia, berço do povo Aruaque, pois diziam ser amaldiçoado. Ampliando as ofertas monetárias, finalmente encontraram um guia, que se prontificou a levá-los. Subindo a estreita estrada para o monte, o jovem guia não parava de cantar uma breve melodia, que aos poucos foi reconhecida pela famíla Bigs: a mesma canção que o pequeno Willy dissera ter aprendido com Vengador. Sendo indagado sobre a origem daquela canção, o guia disse ser o hino das Bahamas. E ele adorava cantar enquanto caminhava para o monte.


Ao retornar para casa, a família Bigs não sabia como explicar as fotos tiradas durante sua viagem. Algumas fotos mostravam diversos desenhos de gatos, nas paredes das cavernas onde viveu o povo Aruaque, representando felinos de todos os tipos e tamanhos. Uma delas, parecia explicitamente um desenho de Vengador. Em outra, tirada em um plano aberto, via-se o desenho do gato na parede e ao chão um minigame eletrônico.


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